Sumário Executivo
O processamento de resíduos urbanos em Portugal é realizado por sistemas municipais e multimunicipais em monopólio regulado. A maioria dos sistemas em alta é controlada pela Mota‑Engil, através da Empresa Geral do Fomento (EGF), e regulada pela ERSAR. Os municípios pagam uma tarifa por tonelada definida no regulamento tarifário da ERSAR.
Este relatório analisa relatórios e contas de 2024 de 19 sistemas em alta que servem 9,4 milhões de habitantes em 232 municípios (91% da população continental). Os resultados revelam fortes assimetrias de rentabilidade e risco financeiro entre sistemas sob o mesmo modelo regulatório.
Principais conclusões:
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Elevada heterogeneidade na rentabilidade O ROE varia entre -10% (ALGAR) e +13% (VALORSUL e ECOLEZÍRIA), num setor maduro onde seria expectável convergência em torno do custo de capital.
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Distribuição de lucros em monopólio A VALORSUL cobrou 47,93 €/t, dos quais 9,8 €/t (20% da tarifa) foram distribuídos como dividendos aos acionistas.
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Risco financeiro assimétrico A maioria dos sistemas apresenta rácios de dívida/EBITDA entre 3,0x e 3,6x, limitando novos investimentos. A VALORSUL (1x) dispõe de margem para investir sem fundos públicos, enquanto ALGAR, TRATOLIXO e AMBILITAL combinam endividamento elevado com resultados fracos.
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Heterogeneidade sob o mesmo modelo regulatório O modelo de proveitos permitidos gera resultados díspares: alguns sistemas operam com resultados negativos; outros apresentam ROE acima de 10% e distribuem dividendos significativos. Esta coexistência indica que o enquadramento regulatório não alinha tarifas, risco e remuneração de capital.
Enquadramento
Estrutura do Sector
A gestão de resíduos urbanos funciona em monopólio regulado, organizado em dois níveis:
Serviço "em Baixa" (Municípios):
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Recolha porta-a-porta e contentores de rua
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Limpeza urbana
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Gestão de ecopontos de proximidade
Serviço "em Alta" (Empresas Multimunicipais):
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Transporte em massa e estações de transferência
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Triagem e valorização material
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Valorização energética (incineração ou biogás)
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Deposição final (aterros)
Esta análise foca-se exclusivamente no Serviço "em Alta".
Enquadramento Regulatório
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ERSAR (Entidade Reguladora dos Serviços de Águas e Resíduos): Define tarifas em alta via modelo de proveitos permitidos (custos + remuneração de capital)
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APA (Agência Portuguesa do Ambiente): Define PERSU 2030 e Taxa de Gestão de Resíduos (TGR)
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Decreto-Lei n.º 96/2014: Enquadra as concessões aos sistemas multimunicipais
A quem se destina
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Os municípios, que usufruem e pagam os serviços das multimunicipais
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A ERSAR, que regula as multimunicipais
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Em menor escala, a APA, pela interação entre fatores económicos e ambientais
Análises
Sistemas Multimunicipais Analisados
Este relatório analisa 19 sistemas em alta: 11 concessionárias EGF e 8 sistemas independentes (LIPOR, TRATOLIXO, AMBISOUSA, AMBILITAL, BRAVAL, ECOLEZIRIA, RESIALENTEJO e RSTJ).
No total, 9,4 milhões de habitantes em 232 municípios (91% da população continental).
| Sistema | Região | Municípios | População (hab) |
|---|---|---|---|
Valorsul |
Lisboa e Oeste |
19 |
1.600.000 |
Lipor |
Grande Porto |
8 |
1.000.000 |
Ersuc |
Centro |
36 |
947.519 |
Resinorte |
Norte |
35 |
904.000 |
Tratolixo |
Lisboa/Cascais-Sintra |
4 |
880.969 |
Amarsul |
Península de Setúbal |
9 |
807.902 |
Algar |
Algarve |
16 |
474.300 |
Suldouro |
Porto/Aveiro |
2 |
444.591 |
Ambisousa |
Vale do Sousa |
6 |
328.605 |
Resulima |
Minho/Lima |
6 |
313.183 |
Valorlis |
Leiria |
6 |
311.000 |
Braval |
Braga |
6 |
298.451 |
Rstj |
Médio Tejo |
12 |
271.172 |
Valnor |
Alto Alentejo |
25 |
242.952 |
Resiestrela |
Cova da Beira |
14 |
180.568 |
Ecoleziria |
Lezíria do Tejo |
7 |
136.426 |
Ambilital |
Alentejo Litoral |
7 |
115.435 |
Resialentejo |
Baixo Alentejo |
8 |
86.505 |
Valorminho |
Minho |
6 |
73.902 |
Rentabilidade
A rentabilidade sobre capital próprio (ROE) compara o lucro anual com o capital próprio.
Num setor maduro em monopólio regulado, ROE elevado sugere remuneração acima do necessário, transferindo rendas para o acionista. ROE baixo indica desincentivo ao investimento; ROE negativo indica insustentabilidade.
| Empresa | ROE (%) |
|---|---|
Valorsul |
13,0 |
Ecoleziria |
11,8 |
Ambisousa |
7,6 |
Valorlis |
5,7 |
Braval |
3,8 |
Valnor |
3,4 |
Amarsul |
3,0 |
Resiestrela |
2,9 |
Suldouro |
2,1 |
Valorminho |
1,4 |
Ersuc |
0,4 |
Resulima |
0,4 |
Rstj |
0,3 |
Resinorte |
0,0 |
Tratolixo |
0,0 |
Lipor |
0,0 |
Resialentejo |
0,2 |
Ambilital |
-3,7 |
Algar |
-10,2 |
Observa-se disparidade marcada nos níveis de ROE sob o mesmo enquadramento regulatório. Sistemas com baixa rentabilidade têm menor capacidade de investir; sistemas com rentabilidade elevada transferem parte significativa da tarifa como lucro. Ambas as situações geram desigualdades regionais.
Sustentabilidade Económica
O rácio dívida líquida/EBITDA mede a sustentabilidade da dívida. Valor baixo indica dívida reduzida face aos resultados operacionais; valor alto indica maior exposição ao risco. Um rácio de 4x corresponde a quatro anos de EBITDA.
| Empresa | Dívida Líquida / EBITDA (x) |
|---|---|
Ecoleziria |
-3,07 |
Braval |
0,06 |
Lipor |
0,00 |
Ambisousa |
0,31 |
Valorsul |
0,93 |
Resiestrela |
1,52 |
Rstj |
1,71 |
Resialentejo |
2,44 |
Suldouro |
2,99 |
Valorlis |
3,10 |
Ersuc |
3,16 |
Resinorte |
3,20 |
Amarsul |
3,40 |
Algar |
3,43 |
Valorminho |
3,43 |
Resulima |
3,58 |
Valnor |
5,81 |
Tratolixo |
7,73 |
Ambilital |
9,18 |
Os dados revelam dispersão significativa: vários sistemas com rácios próximos de 3x, outros acima de 5–7x (risco elevado). Alguns sistemas dependem de reequilíbrios públicos para manter capacidade de investimento; outros mantêm dívidas baixas.
Margem EBITDA
A margem EBITDA mede a percentagem da receita convertida em resultados operacionais. Margem de 20% significa que a empresa gera 20% da tarifa como EBITDA.
| Empresa | Margem EBITDA (%) |
|---|---|
Resialentejo |
42,2 |
Tratolixo |
36,3 |
Lipor |
35,9 |
Ambisousa |
33,1 |
Braval |
28,4 |
Suldouro |
28,0 |
Resiestrela |
27,0 |
Valnor |
26,3 |
Valorsul |
26,0 |
Resinorte |
25,7 |
Valorlis |
25,0 |
Valorminho |
24,1 |
Amarsul |
24,0 |
Ecoleziria |
23,9 |
Ersuc |
22,2 |
Resulima |
20,9 |
Algar |
20,2 |
Rstj |
14,6 |
Ambilital |
11,9 |
17 dos 19 sistemas apresentam margens EBITDA superiores a 20%. Quatro sistemas ultrapassam 30%; conjugadas com ROE elevados e distribuição de dividendos, sugerem que a estrutura tarifária gera remunerações acima do necessário.
Rentabilidade por Tonelada
A rentabilidade por tonelada representa a valorização económica dos resíduos processados.
| Empresa | Rentabilidade por Tonelada (€/t) |
|---|---|
Valorsul |
9,8 |
Ambisousa |
9,5 |
Ecoleziria |
8,1 |
Valnor |
6,5 |
Valorlis |
4,9 |
Resiestrela |
4,6 |
Braval |
2,6 |
Suldouro |
1,6 |
Amarsul |
1,3 |
Valorminho |
0,7 |
Resulima |
0,5 |
Ersuc |
0,3 |
Rstj |
0,1 |
Resinorte |
0,0 |
Tratolixo |
0,0 |
Lipor |
0,0 |
Resialentejo |
0,4 |
Algar |
-3,8 |
Ambilital |
-8,0 |
A análise revela elevada variação: ALGAR perde 4€/t, VALORSUL lucra 10€/t. Este indicador explica a viabilidade económica de cada sistema.
Conclusões
De lucros excessivos a insustentabilidade
Vários sistemas combinam margens EBITDA elevadas, baixo endividamento e ROE acima do custo de capital. VALORSUL, ECOLEZÍRIA, AMBISOUSA e VALNOR apresentam ROE de 10–13% e rentabilidades de 6–10 €/t, distribuindo lucros significativos. O modelo tarifário permite extração de rendas à custa de tarifas superiores ao necessário.
Um segundo grupo (ERSUC, RESINORTE, RESULIMA, LIPOR, TRATOLIXO, SULDOURO) apresenta margens EBITDA acima de 25%, mas ROE próximo de 0% e dívida/EBITDA de 3–4x. Operam em equilíbrio económico com alavancagem relevante e pouca margem para absorver choques. A sustentabilidade depende da capacidade regulatória para alinhar tarifas, investimento e gestão da dívida.
Finalmente, ALGAR e AMBILITAL combinam margens fracas, endividamento superior a 5–9x e prejuízos significativos. Situações de insustentabilidade: não geram meios para renovar ativos, dependendo de fundos públicos e reequilíbrios tarifários. A coexistência de sistemas que distribuem dividendos e sistemas descapitalizados indica desajuste profundo do modelo regulatório.
Um regulador deve garantir que a remuneração do capital seja consistente com o risco e que ganhos de eficiência sejam partilhados. Os dados de 2024 mostram que este equilíbrio não está assegurado.
Em Lisboa, os munícipes estão a subsidiar os acionistas do monopólio
-
Tarifa regulada em 2024: 47,93 €/t
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Lucro gerado: 8,26 M€ (9,80 €/t)
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ROE: 13%
-
Margem EBITDA: 51%
-
Margem Liquida: 20%
-
Destino do lucro: 100% dividendos
20% da tarifa (9,8 €/t) foi distribuída como dividendos.
Num monopólio regulado, ROE de 13% indica:
-
Tarifas acima do necessário, OU
-
Ganhos de eficiência apropriados pelos acionistas, OU
-
Modelo de remuneração desajustado ao risco.
O quadro regulatório permitiu à Valorsul extrair retorno excessivo.[1]
Metodologia
Valores extraídos dos Relatórios & Contas de 2024, convertidos para indicadores por tonelada quando necessário.
Cálculos efetuados com scripts Python disponíveis em https://github.com/jorgecarleitao/relatorio-residuos-urbanos-portugal.
Agradecimentos
Agradecimento à EGF e empresas do grupo pela disponibilização de relatórios completos e transparentes em formato legível por computador.
Agradecimento à ERSAR pelos dados regulatórios que complementaram esta análise.
Referências
Relatórios e Contas das Empresas (2024)
| Sistema | Relatório & Contas 2024 |
|---|---|
ALGAR |
|
AMARSUL |
|
AMBILITAL |
|
AMBISOUSA |
|
BRAVAL |
|
ECOLEZIRIA |
|
ERSUC |
|
GESAMB |
|
LIPOR |
|
PLANALTO BEIRAO |
|
RESIALENTEJO |
|
RESIDUOS NORDESTE |
|
RESIESTRELA |
|
RESINORTE |
|
RESULIMA |
|
RSTJ |
|
SULDOURO |
|
TRATOLIXO |
|
VALNOR |
|
VALORLIS |
|
VALORMINHO |
|
VALORSUL |
Fontes Regulatórias e Legais
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ERSAR - Entidade Reguladora dos Serviços de Águas e Resíduos
Website: https://www.ersar.pt
Regulamento Tarifário do Serviço de Gestão de Resíduos Urbanos -
APA - Agência Portuguesa do Ambiente
Website: https://apambiente.pt
PERSU 2030 - Plano Estratégico para os Resíduos Urbanos -
Decreto-Lei n.º 96/2014, de 26 de junho
Regime jurídico do sector dos resíduos urbanos
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